Política
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Por Maria Cristina Fernandes, Valor — São Paulo


Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou, em sua passagem pela China, a impressão de que tomara partido na guerra entre Ucrânia e Rússia, ao equiparar a responsabilidade de invasor e invadido, o chanceler russo Sergey Lavrov a confirmou ao dizer que seu país e o Brasil têm uma “visão similar” sobre o conflito.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, até que tentou contemporizar mencionando a mediação da paz e fazendo um apelo por um cessar-fogo imediato, mas Lavrov disse que está em busca de uma solução duradoura. Como se tratou de uma visita em retribuição àquela feita por Celso Amorim ao presidente Vladimir Putin, não se pode dizer que o Brasil caiu numa armadilha. Foi em busca dela.

O desdobramento da exposição do Brasil no tema é resumido pelo embaixador Marcos Azambuja numa frase: “As falas do presidente da República na viagem diminuem a rentabilidade do seu prestígio”. Ex-embaixador do Brasil na França e na Argentina, hoje conselheiro emérito do Cebri, deixou o Itamaraty há 20 anos, mas a diplomacia nunca o deixou. Não tem dúvida em afirmar que o Brasil entrou para um círculo muito estreito de países que discutem entre si o destino da humanidade.

Em menos de quatro meses de governo – que poderiam ter sido três sem a pneumonia – o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido pelos presidentes das duas maiores potências mundiais, Joe Biden e Xi Jiping. Amorim esteve com Putin, e o chanceler deste, considerado o segundo na hierarquia do Kremlin, foi recebido nesta segunda feira no Itamaraty e no Palácio do Planalto.

Antes mesmo de tomar conhecimento das declarações de Lavrov, Azambuja já avaliava que Lula, do alto desse prestígio, não poderia ter tomado partido nem emitir juízo de valor. Azambuja vê na “sobriedade das palavras”, o preço que o presidente tem a pagar pelo prestígio alcançado: falar o mínimo possível e não se comprometer com posições para permanecer influente na acomodação de interesses pela paz.

Ao longo de sua viagem à China e aos Emirados Árabes, Lula equiparou, mais de uma vez, a posição da Ucrânia, invadida, e da Rússia, invasora, na deflagração da guerra em fevereiro de 2022 e ainda usou um tom de provocação para defender um comércio bilateral com a China na moeda dos dois países.

O embaixador diz que o presidente contribuiu para dar a impressão de que o Brasil está de um dos lados do conflito e atribui a fala do presidente aos descuidos de uma viagem longa – “Longos vôos não são momentos de sabedoria”. Mas as opiniões de Lula sobre a guerra na Ucrânia não escaparam. Falou num dia e repetiu no outro.

Azambuja lamenta o descasamento das falas com os votos brasileiros sobre a questão nas Nações Unidas. Vê neles a clareza que define a posição histórica do Brasil e a sabedoria do pacifismo sul-americano: “Temos 10 fronteiras e não guerreamos com ninguém. Toda a América do Sul é um continente sem incidentes, ao contrário da Europa”.

Não vê problema em o Brasil encontrar fórmulas de acomodação de seus pagamentos que escapem ao dólar. Só não acha que isso deve ser feito com hostilidade: “O Brasil precisa de EUA forte e de uma China forte. Ao Brasil interessa um mundo com muitos focos de poder”.

Conselho de Segurança da ONU

No mesmo pronunciamento em que colocou o Brasil ao lado da Rússia no conflito com a Ucrânia, Lavrov disse que seu país seria favorável à presença brasileira num assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ou seja, transformou uma negociação que o Brasil pretendia que fosse vista como um capítulo da atuação do país pela paz mundial, em parte da estratégia obsessiva pelo Conselho de Segurança.

Celso Amorim não concorda com nada disso. Diz que foi com posicionamentos como o de Lula que Brasil alcançou o prestígio de hoje. O patrono do Itamaraty, o Barão do Rio Branco, consolidou as fronteiras e a tradição do Brasil por soluções pacíficas há 120 anos. Lula soma oito anos e três meses no poder.

Lavrov teve no Brasil a primeira parada de uma viagem que ainda inclui Nicarágua, Cuba e Venezuela. Amorim não se incomoda que o Brasil tenha sido incluído num roteiro com o qual o país não partilha da visão de mundo: “Não temos como determinar a agenda do chanceler russo”. Amorim e Lavrov se conheceram nas Nações Unidas onde ambos serviram como embaixadores. Em outubro de 2021 o diplomata brasileiro foi convidado a participar da Valdai, uma espécie de Fórum Econômico Mundial que acontece todos os anos na Rússia.

Na China, Amorim encontrou-se com Wang Yi, que foi chanceler e, hoje, ocupa o assento mais próximo de Xi Jinping na formulação de política externa, e participou de parte do encontro de Lula com o presidente chinês que estava programada para 15 minutos e ultrapassou uma hora. Desde sua primeira visita à China, nos anos 1980, diz nunca ter visto uma conversa “com tanto engajamento” dos dois líderes.

O comunicado conjunto da viagem de Lula à China é muito mais ameno do que as declarações de Lula e não traz nenhum avanço em relação ao apoio chinês à cadeira permanente para o Brasil no Conselho de Segurança. Como o Brasil também não apoiou a “Iniciativa global de segurança” da China, Amorim acha que ficaram quites, mas quem assumiu riscos nesta viagem foi o Brasil

O embaixador rejeita com veemência a percepção de que o Brasil tomou um lado. Vê interesse da União Europeia em uma relação de maior autonomia em relação aos EUA, como disse o presidente francês Emannuel Macron, e confirmou a participação de Lula na reunião virtual sobre clima e energia patrocinada pelo presidente Joe Biden

Se o embaixador vê avanços do Brasil no xadrez internacional, não tem meios para conter um eventual dano de popularidade que Lula pode vir a colher de sua ofensividade diplomática. Nada sugere que a metade do Brasil que o olha de banda a aprove.

O chanceler russo, Sergey Lavrov, em visita ao Brasil — Foto: Eraldo Peres/AP
O chanceler russo, Sergey Lavrov, em visita ao Brasil — Foto: Eraldo Peres/AP
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